lo­to saber por que al­tura cam­in­ha­va, só pela sua fra­ca es­ti­ma­ti­va, sem con­ta de graus nem de min­utos, pouco mais ou menos foi de­man­dar a par­agem das il­has dos papuas, celebes e min­danaus, que dis­tavam dali seis­cen­tas léguas.

  No se­gun­do dia des­ta tor­men­ta, já so­bre a tarde, foi crescen­do o mar de es­car­céu com va­gas tão al­tas que o ím­peto da nau as não po­dia romper, pe­lo que se as­sen­tou, por pare­cer dos ofi­ci­ais, que as obras do chapitéu e dos caste­los de avante se ar­rasassem até ao an­dar do con­vés, para que as­sim pudesse a nau ficar mais afronta­da, e obe­de­cer aos lanços do leme.

  Feito is­to com to­da a presteza pos­sív­el, porque to­dos, sem ficar nen­hum, se ocu­param neste tra­bal­ho, se en­ten­deu lo­go em se se­gu­rar o ba­tel, o qual com as­saz de tra­bal­ho foi atra­ca­do a bor­do, e lhe guarnece­ram lo­go um cabo de duas amar­ras de cairo no­vo. E porque já quan­do es­ta obra se acabou, a cer­ração da noite era muito grande, não foi pos­sív­el recol­her-​se à nau a gente que es­ta­va nele, pe­lo que foi forçoso fi­carem aque­la noite lá to­dos, que foram quinze, de que cin­co er­am por­tugue­ses, e os out­ros es­cravos e mar­in­heiros.

  Em to­dos estes tra­bal­hos e in­fortúnios nos acom­pan­hou sem­pre este bem-​aven­tu­ra­do padre, tan­to de noite corno de dia, por uma parte tra­bal­han­do por sua pes­soa corno ca­da um dos out­ros, e por out­ra an­iman­do e con­solan­do a to­dos, de maneira que de­pois de Deus, ele só era o capitão que nos es­força­va e nos da­va alen­to para de to­do nos não ren­der­mos ao tra­bal­ho e nos en­tre­gar­mos de to­do à ven­tu­ra, corno al­guns quis­er­am faz­er al­gu­mas vezes, se ele não fos­se.

  Sendo já quase meia-​noite, os quinze que iam no ba­tel de­ram ur­na grande gri­ta de «Sen­hor Deus mis­er­icór­dia», e acud­in­do to­da a gente na nau a saber o que aqui­lo era, vi­ram ao hor­izonte do mar o ba­tel ir atrav­es­sa­do, porque se lhe que­braram os bragueiros am­bos com que es­ta­va amar­ra­do. O capitão, com a dor daque­le de­sas­tre, sem con­sid­er­ação al­gu­ma nem aten­tar no que fazia, man­dou ar­rib­ar a nau pela es­teira do ba­tel, pare­cen­do-​lhe que o pode­ria sal­var, mas co­mo ela era má de gov­er­no, e acu­dia de­va­gar ao leme por causa da pou­ca vela de que era aju­da­da, fi­cou atrav­es­sa­da en­tre duas va­gas, onde a en­capelou uma grande ser­ra por cima da popa, e lhe lançou no con­vés taman­ho pe­so de água, que de to­do a teve soço­bra­da, a que a gente com uma grande gri­ta que rompia o ar, chamou com mui­ta in­stân­cia por Nos­sa Sen­ho­ra que lhe va­lesse.

  A is­to acud­iu o padre muito de­pres­sa, que neste tem­po es­ta­va pos­to de joel­hos de­bruça­do so­bre uma caixa na câ­mara do capitão, e ven­do a nau da maneira que es­ta­va, e nós pelas amu­radas uns so­bre os out­ros, es­calavra­dos os mais de­les, das capoeiras do con­vés, lev­an­tan­do as mãos ao céu, disse al­to:

  -Ó Je­sus Cristo, amores de mi an­ima, vale-​nos, Sen­hor, pelas cin­co cha­gas que por nós pade­ces­te na ár­vore da ve­ra Cruz!

  E lo­go naque­le breve in­stante mi­la­grosa­mente a nau tornou a sur­dir so­bre a va­ga do mar, e acud­in­do lo­go com mui­ta pres­sa a marear a mo ne­ta que ia guarneci­da por pa­pa-​fi­go ao pé do tra­que­te, prou­ve a Nos­so Sen­hor que fi­cou di­re­ita, e lo­go marea­da em popa, e o ba­tel de­sa­pare­ceu de to­do pela es­teira da nau, de que to­dos ficaram choran­do e rezan­do pelas al­mas dos que iam nele.

  Des­ta maneira cor­re­mos tu­do o que resta­va da noite, com as­saz de tra­bal­ho, e quan­do foi man­hã clara, em to­do o mar quan­to al­cança­va a vista da gávea, não apare­cia coisa nen­hu­ma mais q