e me ap­re­sen­tou a el-​rei, o qual fazen­do-​me gasal­ha­do, me disse:

  -A tua chega­da a es­ta ter­ra de que eu sou sen­hor, se­ja ante mim tão agradáv­el co­mo a chu­va do céu no meio do cam­po dos nos­sos ar­rozes.

  Eu, achan­do-​me as­saz em­baraça­do com a novi­dade daque­la saudação e daque­las palavras, lhe não re­spon­di por en­tão, coisa al­gu­ma. Ele, en­tão, ol­han­do para os sen­hores que es­tavam pre­sentes, lh­es disse:

  -Sin­to tur­vação neste es­trangeiro, e será por ver tan­ta gente, de que pode ser que ven­ha de­sacos­tu­ma­do, pe­lo que será bom deixar­mos is­to para out­ro dia, porque se fará mais à casa e não es­tran­hará ver-​se no que ago­ra se vê.

  A is­to re­spon­di eu en­tão pe­lo meu in­tér­prete, que lev­ava muito bom, que quan­to ao que sua al­teza dizia de me sen­tir tur­va­do, lhe con­fes­sa­va, mas não por causa da mui­ta gente de que me via cer­ca­do, porque já out­ras vezes tin­ha vis­to out­ra em muito maior quan­ti­dade, mas que quan­do eu imag­ina­va que me via di­ante dos seus pés, is­so só bas­ta­va para eu ficar mu­do cem mil anos, se tan­tos tivera de vi­da, porque os que es­tavam à ro­da er­am home­ns co­mo eu, porém sua al­teza o fiz­era Deus em tão al­to grau avan­ta­ja­do a to­dos, que lo­go quis­era que fos­se sen­hor e os out­ros fos­sem ser­vos, e que eu fos­se formi­ga tão pe­que­na em com­para­ção da sua grandeza, que por ser pe­queno nem ele me enx­er­gasse nem eu soubesse re­spon­der a suas per­gun­tas.

  Da qual tosca e gros­seira re­spos­ta, to­dos os que es­tavam pre­sentes fiz­er­am taman­ho ca­so que ba­ten­do as pal­mas a mo­do de es­pan­to, dis­ser­am para el-​rei:

  -Vê vos­sa al­teza co­mo fala a propósi­to? Não deve este homem ser mer­cador que trate em baix­eza de com­prar e vender, senão bon­zo pre­gador que min­istre sac­ri­fí­cio ao po­vo, um homem que se criou para corsário do mar.

  A que el-​rei re­spon­deu:

  -Ten­des razão, e a mim as­sim mo parece, mas já que largou os fe­chos à co­var­dia, va­mos adi­ante com nos­sas per­gun­tas, e ninguém fale na­da, porque eu só quero ser o que per­gunte, que vos afir­mo que ten­ho gos­to de falar com ele, tan­to que quiça com­erei daqui a um pouco, qual­quer bo­ca­do, porque não sin­to ago­ra nen­hu­ma dor em mim.

  De que a rain­ha e suas fil­has que es­tavam jun­to com ele, com grande con­tenta­men­to e com os joel­hos em ter­ra, lev­an­taram as mãos ao céu e de­ram a Deus muitas graças por aque­la mer­cê que lh­es fiz­era.

  Da grande tor­men­ta que passá­mos, 

  in­do do Japão para a Chi­na, e co­mo 

  fo­mos livres dela por orações deste 

  ser­vo de Deus

  Ao out­ro dia pela man­hã, de­pois que o nos­so san­to padre com to­dos os por­tugue­ses se de­spediu de el-​rei, o qual nes­ta de­spe­di­da lhe fez as hon­ras e o gasal­ha­do que sem­pre cos­tu­mara, nos fo­mos a em­bar­car e nos par­ti­mos des­ta cidade Fuchéu, vele­já­mos por nos­sa ro­ta à vista de ter­ra até uma il­ha de el-​rei de Mi­nacó, chama­da Meleitor, e atrav­es­san­do daqui com ven­tos de monção ten­dente, con­tin­uá­mos nos­so cam­in­ho por es­paço de sete dias, no fim dos quais o tem­po, com a con­junção da lua no­va, nos saltou ao sul, e ameaçan­do-​nos com chu­veiros e mostras de in­ver­no, veio em taman­ho cresci­men­to que nos foi forçoso ar­rib­ar en­fim de ro­da com a proa ao ru­mo de nor-​nordeste por mar in­cóg­ni­to e nun­ca nave­ga­do por nação nen­hu­ma, sem saber­mos por onde íamos, en­tregues de to­do ao ar­bítrio da for­tu­na e do tem­po, com uma tão bra­va e tão ex­ces­si­va tor­men­ta, qual os home­ns nun­ca imag­inaram, que nos durou cin­co dias. E co­mo em to­dos eles nun­ca vi­mos o sol, para o pi­