 e ace­nou ao in­tér­prete que es­ta­va um pouco mais afas­ta­do, e nos disse por ele:

  -Ro­go-​vos muito, ami­gos meus, que ouçais es­ta car­ta que me ago­ra de­ram, de el-​rei do Bun­go, meu sen­hor e tio, e en­tão vos di­rei o que quero de vós.

  E dan­do-​a a um seu tesoureiro, lhe man­dou que a lesse, a qual dizia as­sim: 

  «Ol­ho di­re­ito do meu ros­to, sen­ta­do a par de mim co­mo ca­da um dos meus ama­dos, Hyas­carão goxo Nau­taquim de Tanix­umá, eu, Ore­gendó, vos­so pai no amor ver­dadeiro de min­has en­tran­has, co­mo aque­le de quem tomastes o nome e o ser de vos­sa pes­soa, Rei do Bun­go e Fa­catá, sen­hor da grande casa de Fi­anci­ma, e Tosa, e Ban­dou, cabeça supre­ma dos reis pe­quenos das il­has do Go­to e Xa­manax­eque, vos faço saber, fil­ho meu, pelas palavras de min­ha bo­ca di­tas a vos­sa pes­soa, que em dias pas­sa­dos me cer­ti­ficaram home­ns que vier­am dessa ter­ra, que tín­heis nes­sa vos­sa cidade uns três chenchico­gins do cabo do mun­do, gente muito apro­pri­ada aos japões, e que vestem se­da e cingem es­padas, não co­mo mer­cadores que fazem fazen­da, senão co­mo home­ns ami­gos de hon­ra, e que pre­ten­dem por ela dourar seus nomes, e que de to­das as coisas do mun­do que lá vão por fo­ra, vos têm da­do grandes in­for­mações, nas quais afir­mam em sua ver­dade que há out­ra ter­ra muito maior que es­ta nos­sa, e de gentes pre­tas e baças, coisas in­críveis ao nos­so juí­zo, pe­lo que vos peço muito co­mo a fil­ho igual aos meus, que por Fin­ge­an­dono, por quem man­do vis­itar min­ha fil­ha, me queirais man­dar mostrar um dess­es três que me lá dizem que ten­des, pois co­mo sabeis, mo es­tá pedin­do a min­ha pro­lon­ga­da doença e má dis­posição, cer­ca­da de dores, e de mui­ta tris­teza, e de grande fas­tio, e se tiverem nis­to al­gum pe­jo, os se­gu­rareis na vos­sa e na min­ha ver­dade, que lo­go sem fal­ta o tornarei a man­dar a sal­vo; e co­mo fil­ho que de­se­ja agradar a seu pai, fazei que me ale­gre com sua vista, e que me cumpra este de­se­jo. E o mais que nes­ta deixo de vos diz­er, vos dirá Fin­ge­an­dono, pe­lo qual vos peço que lib­eral­mente repar­tais comi­go de boas no­vas de vos­sa pes­soa e de min­ha fil­ha, pois sabeis que é ela a so­brancel­ha do meu ol­ho di­re­ito, com cu­ja vista se ale­gra meu ros­to. Da casa do Fuchéu, aos sete mamo­cos da lua.»

  De­pois de li­da es­ta car­ta, nos disse o nau­taquim: 

  -Este rei do Bun­go é meu sen­hor e meu tio, ir­mão de min­ha mãe, e so­bre­tu­do é meu bom pai, e pon­ho-​lhe este nome porque o é de min­ha mul­her, pelas quais razões me tem tan­to amor co­mo aos seus mes­mos fil­hos, e eu, pela grande obri­gação que por is­to lhe ten­ho, vos cer­ti­fi­co que es­tou tão de­se­joso de lhe faz­er a von­tade, que de­ra ago­ra grande parte da min­ha ter­ra para que Deus me fiz­era um de vós out­ros, tan­to para o ir ver co­mo para lhe dar este gos­to que eu en­ten­do, pe­lo muito que sei da sua condição, que ele es­ti­mará mais que to­do o tesouro da Chi­na. E já que de mim ten­des en­ten­di­da es­ta von­tade, vos ro­go muito que con­formeis a vos­sa com ela, e que queira um de vós am­bos ir a Bun­go ver este rei que eu ten­ho por pai e sen­hor, porque estoutro a que dei nome e ser de par­ente não o hei-​de apartar de mim até que de to­do me não en­sine a ati­rar co­mo ele.

  Nós os dois, Cristóvão Bor­ral­ho e eu, lhe re­spon­de­mos que bei­já­va­mos as mãos de sua al­teza pela mer­cê que nos fazia em se quer­er servir de nós, e já que nis­so mostra­va gos­to, or­de­nasse qual de nós que­ria que fos­se, porque se iria lo­go faz­er prestes, ao que ele de­pois de es­tar um pouco pen­sati­vo na de­lib­er­ação da es­col­ha, apon­tan­do para mim, re­spon­deu:

  -Este, que 