 e sem­pre dali por di­ante o fa­vore­ceu muito, e a nós por seu re­speito, em al­gu­ma maneira. 

  E en­ten­den­do en­tão o Dio­go Zeimo­to que em nen­hu­ma coisa po­dia mel­hor sat­is­faz­er ao nau­taquim al­gu­ma parte destas hon­ras que lhe fiz­era, e que na­da lhe daria mais gos­to que lhe dar a es­pin­gar­da, lha ofer­eceu um dia que vin­ha da caça com mui­ta so­ma de pom­bas e ro­las, a qual ele aceitou por peça de muito preço e lhe afir­mou que a es­ti­ma­va muito mais que to­do o tesouro da Chi­na, e lhe man­dou dar por ela mil taéis de pra­ta, e lhe ro­gou muito que o en­si­nasse a faz­er a pólvo­ra, porque sem ela fi­ca­va a es­pin­gar­da sendo um pedaço de fer­ro de­saproveita­do, o que o Zeimo­to lhe prom­eteu e lho cumpriu. E co­mo dali por di­ante o gos­to e pas­satem­po do nau­taquim era no ex­er­cí­cio des­ta es­pin­gar­da, ven­do os seus que em nen­hu­ma coisa o po­di­am con­tentar mais que naque­la de que ele mostra­va tan­to gos­to, or­denaram man­dar faz­er, por aque­la, out­ras do mes­mo teor, e as­sim o fiz­er­am lo­go. De maneira que o fer­vor deste apetite e cu­riosi­dade foi dali por di­ante em taman­ho cresci­men­to que já quan­do dali nos par­ti­mos, que foi dali a cin­co meses e meio, havia na ter­ra pas­sante de seis­cen­tas. E de­pois a der­radeira vez que me lá man­dou o Vice-​Rei D. Afon­so de Noron­ha, com um pre­sente para o rei do Bun­go, que foi no ano de 1556, me afir­maram os japões que naque­la cidade do Fuchéu, que é a metrópole deste reino, havia mais de trin­ta mil. E fazen­do eu dis­to grande es­pan­to, por me pare­cer que não era pos­sív­el que es­ta coisa fos­se em tan­ta mul­ti­pli­cação, me dis­ser­am al­guns mer­cadores, home­ns no­bres e de re­speito, e mo afir­maram com muitas palavras, que em to­da a il­ha do Japão havia mais de trezen­tas mil es­pin­gar­das, e que eles so­mente tin­ham lev­ado de ve­ni­aga para os léquios, em seis vezes que lã tin­ham ido, vinte e cin­co mil.

  De mo­do que por es­ta só que o Zeimo­to aqui deu ao nau­taquim, com boa tenção e por boa amizade, e para lhe sat­is­faz­er parte das hon­ras e mer­cês que tin­ha re­ce­bido dele, co­mo atrás fi­ca di­to, se encheu a ter­ra de­las em tan­ta quan­ti­dade que não há já aldeia nem lu­gar por pe­queno que se­ja, donde não sa­iam de cen­to para cima, e nas cidades e vi­las mais notáveis, não se fala senão por muitos mil­hares de­las. E por aqui se saberá que gente es­ta é, e quão in­cli­na­da por na­tureza ao ex­er­cí­cio mil­itar no qual se delei­ta mais que to­das as out­ras nações que ago­ra se sabem.

  Co­mo este nau­taquim me man­dou mostrar

  ao rei do Bun­go, e do que vi e pas­sei 

  até chegar onde ele es­ta­va 

  Haven­do já vinte e três dias que es­tá­va­mos nes­ta il­ha de Tanix­umá, des­cansa­dos e con­tentes, pas­san­do o tem­po em muitos de­sen­fada­men­tos de pescarias e caças a que estes japões co­mum­mente são muito in­cli­na­dos, chegou a este por­to uma nau do reino de Bun­go, em que vin­ham muitos mer­cadores, os quais de­sem­bar­can­do em ter­ra foram lo­go vis­itar o nau­taquim com seus pre­sentes, co­mo têm por cos­tume. En­tre estes, vin­ha um homem vel­ho e bem acom­pan­hado, e a quem to­dos os out­ros falavam com acata­men­to, o qual pos­to de joel­hos di­ante do nau­taquim, lhe deu uma car­ta, e um ri­co terça­do guarneci­do de ouro, e uma bo­ceta cheia de abanos, que o nau­taquim to­mou com grande cer­imó­nia. E de­pois de es­tar com ele um grande es­paço per­gun­tan­do-​lhe por al­gu­mas par­tic­ular­idades, leu a car­ta para si e en­ten­den­do a sub­stân­cia dela, fi­cou al­gum tan­to mais car­rega­do, e de­spedin­do de si o que lha troux­era, man­dan­do-​o agasal­har hon­rada­mente, nos chamou para jun­to de si