 suas per­gun­tas ser homem cu­rioso e in­cli­na­do a coisas no­vas, e se de­spediu de nós e do necodá chim, que dos mais não fez muito ca­so, dizen­do: 

  -Aman­hã ide ver-​me a min­ha casa, e lev­ai-​me um grande pre­sente de no­vas desse grande mun­do por onde an­dastes e das ter­ras que ten­des vis­to, e co­mo se chamam, porque vos afir­mo que es­sa só mer­cado­ria com­prarei mais a meu gos­to que to­das as out­ras. 

  E com is­to se tornou para ter­ra. 

  E quan­do ao out­ro dia foi man­hã clara, nos man­dou ao jun­co um grande pa­rau de re­fres­co, em que en­travam uvas, peras, melões, e to­da a sorte de hor­tal­iça que há nes­ta ter­ra, com cu­ja vista de­mos muitas graças e lou­vores a Nos­so Sen­hor. O necodá do jun­co lhe man­dou pe­lo men­sageiro al­gu­mas peças ri­cas e brin­cos da Chi­na, em re­torno do re­fres­co, e lhe man­dou diz­er que quan­do o jun­co an­co­rasse no surgi­douro onde es­tivesse se­guro do tem­po, o iria lo­go ver a ter­ra e levar-​lhe as amostras da fazen­da que trazia para vender. E ao out­ro dia, lo­go que foi man­hã, de­sem­bar­cou em ter­ra e nos lev­ou con­si­go a to­dos três, com mais dez ou doze chins, os que lhe pare­ce­ram mais graves e au­tor­iza­dos em suas pes­soas, quais os ele que­ria para o or­na­men­to des­ta primeira visi­ta, em que es­ta gente cos­tu­ma mostrar-​se com mui­ta vaidade.

  Chegan­do nós a casa do nau­taquim, fo­mos to­dos muito bem re­ce­bidos por ele, e o necodá lhe deu um bom pre­sente, e após is­to lhe mostrou as amostras de to­da a sorte de fazen­da que trazia, de que ele fi­cou sat­is­feito e man­dou lo­go chamar os prin­ci­pais mer­cadores da ter­ra, com os quais se tra­tou do preço dela, e con­cer­ta­dos nele se as­sen­tou que ao out­ro dia se trouxesse a uma casa que man­dou dar ao necodá, em que se agasal­has­se com a sua gente até se tornar para a Chi­na. 

  Is­to or­de­na­do, o nau­taquim tornou de no­vo a praticar connosco e a per­gun­tar-​nos por muitas coisas mi­uda­mente, a que re­spon­de­mos mais con­forme ao gos­to que nele víamos, que não ao que real­mente era ver­dade, mas is­to foi em cer­tas per­gun­tas em que foi necessário aju­dar­mo-​nos de al­gu­mas coisas fin­gi­das, para não des­faz­er­mos o crédi­to que ele tin­ha des­ta nos­sa pá­tria. A primeira foi diz­er-​nos que lhe tin­ham di­to os chins e léquios, que Por­tu­gal era muito maior em quan­ti­dade tan­to de ter­ra, co­mo de riqueza, que to­do o im­pério da Chi­na, o que nós lhe con­cede­mos. A se­gun­da, que tam­bém lhe tin­ham cer­ti­fi­ca­do que tin­ha o nos­so rei sub­ju­ga­do por con­quista de mar, a maior parte do mun­do, o que tam­bém dis­se­mos que era ver­dade. A ter­ceira, que era tão ri­co o nos­so rei, de ouro e de pra­ta, que se afir­ma­va que tin­ha mais de duas mil casas cheias até ao tel­ha­do, e a is­to re­spon­de­mos que do número de duas mil casas, nos não cer­ti­ficá­va­mos, por ser a ter­ra e o reino em si taman­ho, e ter tan­tos tesouros e povos, que era im­pos­sív­el poder-​se diz­er-​lhe a certeza dis­so. E nes­tas per­gun­tas e em out­ras des­ta maneira, nos de­teve mais de duas ho­ras, e disse para os seus: 

  -É cer­to que se não deve de haver por di­toso nen­hum rei de quan­tos ago­ra sabe­mos na ter­ra, senão só o que for vas­sa­lo de taman­ho monar­ca co­mo é o im­per­ador des­ta gente. 

  E de­spedin­do o necodá com to­da a sua com­pan­hia, nos ro­gou que quisésse­mos ficar aque­la noite com ele em ter­ra, porque se não far­ta­va de nos per­gun­tar muitas coisas do mun­do, a que era muito in­cli­na­do, e que pela man­hã nos man­daria dar umas casas em que pousásse­mos jun­to com as suas, por ser o mel­hor lu­gar da cidade, o que nós fize­mos de boa von­tade, e nos man­dou agasal­har com um m