nos­so din­heiro nos provesse de água, de que vín­hamos fal­tos, E surgin­do nós no ros­to da il­ha, em se­ten­ta braças, nos saíram da ter­ra duas al­ma­dias pe­que­nas em que vin­ham seis home­ns, os quais chegan­do a bor­do, de­pois de nos faz­erem suas sal­vas e corte­sias a seu mo­do, nos per­gun­taram donde vin­ha o jun­co, a que se re­spon­deu que da Chi­na, com mer­cado­rias para se faz­er ali ve­ni­aga com eles, se para is­so nos dessem li­cença. Um dos seis nos re­spon­deu que a li­cença, o nautarel sen­hor daque­la il­ha Tanix­umá, a daria de boa von­tade se lhe pagásse­mos os di­re­itos que se cos­tu­mavam pa­gar no Japão, que era aque­la grande ter­ra que de­fronte nos apare­cia. 

  E com is­to nos deu re­lação de tu­do o mais que nos con­vin­ha, e nos mostrou o por­to onde havíamos de ir sur­gir. Nós, com este alvoroço, lev­an­tá­mos lo­go as amar­ras e nos fo­mos com o ba­tel pela proa, me­ter em uma cal­heta que a ter­ra fazia da ban­da do sul, onde es­ta­va uma grande povoação a que chamavam Mi­ay­gimá, da qual lo­go nos vier­am a bor­do muitos pa­raus com re­fres­co que lh­es com­prá­mos.

  Co­mo de­sem­bar­cá­mos nes­ta il­ha de 

  Tanix­umá, e do que passá­mos com 

  o sen­hor dela

  Não havia ain­da bem duas ho­ras que es­tá­va­mos sur­tos nes­ta cal­heta de Mi­ay­gimá, quan­do o nau­taquim, príncipe des­ta il­ha de Tanix­umá, veio ao nos­so jun­co acom­pan­hado de muitos mer­cadores e de gente no­bre, com grande so­ma de caixões cheios de pra­ta para faz­er fazen­da. E de­pois de se faz­erem de parte a parte as corte­sias cos­tu­madas, e ele ter se­guro para se poder chegar a nós, se chegou lo­go, e ven­do-​nos aos três por­tugue­ses, per­gun­tou que gente éramos, porque na difer­ença do ros­to e bar­bas, en­ten­dia que não éramos chins. O capitão corsário lhe re­spon­deu que éramos de uma ter­ra que se chama­va Mala­ca, para onde havia muitos anos tín­hamos vin­do de out­ra a que chamavam Por­tu­gal, cu­jo rei, se­gun­do nos tin­ha ou­vi­do al­gu­mas vezes, habita­va no cabo da grandeza do mun­do. Do que o nau­taquim fez um grande es­pan­to e disse para os seus que es­tavam pre­sentes: 

  -Que me matem, se não são estes os chenchico­gins de que es­tá es­crito em nos­sos vol­umes que voan­do por cima das águas, têm sen­ho­ri­ado ao lon­go de­las os habita­dores das ter­ras onde Deus criou as riquezas do mun­do, pe­lo que nos cairá em boa sorte se eles vierem a es­ta nos­sa com tí­tu­lo de boa amizade. 

  E chaman­do en­tão para jun­to de si, sua mul­her léquia, que era a in­tér­prete por quem se en­ten­dia com o capitão chim, sen­hor do jun­co, lhe disse: 

  -Per­gun­ta ao necodá onde achou estes home­ns, ou com que tí­tu­lo os traz con­si­go a es­ta nos­sa ter­ra do Japão.

  Ao que re­spon­deu que sem fal­ta nen­hu­ma éramos mer­cadores e gente boa, e que por nos achar per­di­dos em Lam­pacau, nos recol­hera para nos aju­dar com suas es­mo­las, co­mo tin­ha por cos­tume faz­er a out­ros que já as­sim achara, para que Deus per­mi­tisse livrá-​lo a ele das ad­ver­si­dades im­petu­osas que cur­savam por cima do mar, com as quais se per­diam os nave­gantes. 

  Ao nau­taquim pare­ce­ram tão boas es­tas razões do corsário, que en­trou lo­go no jun­co e man­dou aos seus que por serem muitos não en­trassem mais que os que ele dissesse. E de­pois de an­dar ven­do to­das as par­tic­ular­idades do jun­co, tan­to da popa co­mo da proa, se sen­tou nu­ma cadeira jun­to da tol­da, e nos es­teve in­quirindo de al­gu­mas coisas par­tic­ulares que de­se­jou saber de nós, a que re­spon­de­mos ao gos­to que nele enx­ergá­mos, de que ele mostra­va muito con­tenta­men­to. Nes­tas práti­cas se gas­tou connosco um grande es­paço, mostran­do em to­das as