ue so­mente o es­car­céu da tor­men­ta que reben­ta­va em flor. E sendo pas­sa­do pouco mais de meia ho­ra de dia, o padre que en­tão es­ta­va recol­hi­do na câ­mara do capitão, veio ao chapitéu onde es­tavam o mestre e o pi­lo­to com mais seis ou sete por­tugue­ses, e de­pois de dar a to­dos os bons-​dias com sem­blante ale­gre e qui­eto, per­gun­tou se apare­cia o ba­tel, e lhe foi re­spon­di­do que não; e ro­gan­do ao mestre que quisesse man­dar um mar­in­heiro à gávea para que visse se apare­cia lá de cima, um dos que ali es­tavam lhe disse que apare­ce­ria quan­do se perdesse out­ro, a que o padre, pe­san­do-​lhe o que ou­vi­ra, re­spon­deu:

  -Ó ir­mão Pêro Vel­ho (que as­sim se chama­va ele), muito pe­que­na fé é es­sa que ten­des! E co­mo? Haveis vós por­ven­tu­ra que pode ser al­gu­ma coisa im­pos­sív­el a Deus Nos­so Sen­hor? Pois eu con­fio nele e na sacratís­si­ma Virgem Maria sua Mãe, a quem por ele ten­ho prometi­do três Mis­sas na sua ben­di­ta casa do Out­eiro, em Mala­ca, que há-​de per­mi­tir que aque­las al­mas que vão nele se não per­cam -de que o Pêro Vel­ho fi­cou cor­ri­do e não falou mais palavra nen­hu­ma.

  O mestre en­tão para sat­is­faz­er mel­hor ao ro­go do padre, ele em pes­soa com out­ro mar­in­heiro se foram à gávea, e vi­gian­do de lá de cima por es­paço de quase meia ho­ra, dis­ser­am que em to­do o mar quan­to lh­es al­cança­va a vista, não apare­cia coisa nen­hu­ma, e o padre lh­es re­spon­deu:

  -Ora descei-​vos, que não há já que faz­er.

  E chaman­do-​me en­tão para o chapitéu onde ele es­ta­va, e ao pare­cer de to­dos bem triste, me disse se lhe que­ria man­dar aque­ntar uma pou­ca de água para be­ber, porque trazia o es­tô­ma­go muito de­scon­so­la­do, a que eu por meus peca­dos não sat­is­fiz, por não haver fogão na nau, porque se tin­ha lança­do ao mar no dia antes, quan­do se al­ijou o con­vés no princí­pio da tor­men­ta. E queixan­do-​se-​me ele en­tão que an­da­va muito es­vaí­do da cabeça, e com vá­ga­dos que lhe acu­di­am de quan­do em quan­do, lhe re­spon­di eu:

  -Não é de mais an­dar vos­sa reverên­cia dessa maneira, pois há três noites que não dorme, e quiça que nem com­eria bo­ca­do, porque as­sim me disse um moço de Duarte da Gama.

  A que ele re­spon­deu: 

  -Cer­ti­fi­co-​vos que hei dó dele, por quão de­scon­so­la­do o ve­jo, porque es­ta noite de­pois que se perdeu o ba­tel, nun­ca deixou de chorar por seu so­brin­ho Afon­so Cal­vo, que vai nele com os mais com­pan­heiros.

  Eu en­tão, porque vi o padre bo­ce­jar muitas vezes, lhe disse: 

  -Vá-​se vos­sa reverên­cia en­costar um pouco ali naque­le meu ca­marote, e quiça que re­pousará -o que ele aceitou, dizen­do que fos­se pe­lo amor de Deus, e que me pe­dia muito que man­dasse ao meu chi­na que lhe fechas­se a por­ta, e se não fos­se dali, para que quan­do o chamasse lha abrisse. E is­to po­dia ser das seis até às sete ho­ras da man­hã, pouco mais ou menos, e recol­hi­do no ca­marote es­teve nele to­do o dia até quase sol-​pos­to. E ac­er­tan­do eu neste comenos de chamar o chi­na que es­ta­va à por­ta, da ban­da de fo­ra, para que me desse um pú­caro de água, lhe per­gun­tei se dormia ain­da o padre, e ele me re­spon­deu:

  -Nun­ca dormiu, mas es­tá de joel­hos choran­do de bruços so­bre o catre.

  E eu lhe disse en­tão que se tor­nasse a sen­tar à por­ta, e que acud­isse quan­do chamasse.

  Des­ta maneira es­teve o padre recol­hi­do na sua oração até quase sol-​pos­to, e en­tão se saiu do ca­marote e se foi aci­ma ao chapitéu onde os por­tugue­ses to­dos es­tavam sen­ta­dos no chão por causa dos grandes pen­dores e bal­anços que da­va a nau; e de­pois de os saudar a to­dos, per­gun­tou ao pi­lo­to se apare­ci