os trouxe de Uzan­gué, es­pan­ta­do deste nos­so bar­baris­mo, se par­tiu muito en­fada­do, sem quer­er levar car­ta nem reca­do nos­so que nen­hum de nós lhe desse, dizen­do que antes que­ria que el-​rei por is­so lhe man­dasse cor­tar a cabeça, que ofend­er a Deus em levar coisa nos­sa onde ele fos­se. 

  E as­sim difer­entes e mal-​avin­dos, ficá­mos aqui nes­ta pe­que­na il­ha mais nove dias, em que os jun­cos am­bos se par­ti­ram, sem tam­bém nen­hum de­les nos quer­er levar con­si­go, pe­lo que nos foi forçoso ficar ali meti­dos no ma­to, ar­risca­dos a muitos e grandes peri­gos, dos quais pon­ho em mui­ta dúvi­da po­der­mos es­capar, se Deus Nos­so Sen­hor se não lem­brasse de nós, porque haven­do já dezas­sete dias que aqui es­tá­va­mos em grande mis­éria e es­ter­il­idade, veio ali por aca­so sur­gir um corsário de nome Samipocheca, que vin­ha des­barata­do, fug­in­do da ar­ma­da do aitau do Chinchéu, que, de vinte e oito bar­cos que tin­ha, lhe tomara vinte e seis, e ele lhe es­capara com so­mente aque­las duas que trazia con­si­go, nas quais trazia a maior parte da gente muito feri­da, pe­lo que lhe foi forçoso de­ter-​se ali vinte dias para que a curasse. E a nós os oito, con­strangi­dos pela ne­ces­si­dade, nos foi forçoso as­sen­tar­mos par­tido com ele para que nos lev­asse con­si­go por onde quer que fos­se, até que Deus nos mel­ho­rasse noutra em­bar­cação mais se­gu­ra e que nos fôsse­mos para Mala­ca.

  Pas­sa­dos estes vinte dias em que os feri­dos se cu­raram, sem em to­do este tem­po haver en­tre nós rec­on­cil­iação da de­savença pas­sa­da, nos em­bar­cá­mos ain­da as­sim mal-​avin­dos, com este corsário, três no jun­co em que ele vin­ha, e cin­co no out­ro de que era capitão um seu so­brin­ho, e par­tidos daqui para um por­to que se chama­va Lailó, adi­ante de Chinchéu sete léguas, e des­ta il­ha oiten­ta, seguimos por nos­sa ro­ta com ven­tos bo­nançosos ao lon­go da cos­ta de Lamau, por es­paço de nove dias. E sendo uma man­hã quase noroeste-​sueste com o rio do sal, que es­tá abaixo do Chabaqué cin­co léguas, nos acome­teu um ladrão com sete jun­cos muito al­terosos, e pele­jan­do connosco das seis ho­ras da man­hã até às dez, em que tive­mos uma briga as­saz trava­da de muitos ar­remes­sos, tan­to de lanças co­mo de fo­go, por fim se queimaram três bar­cos, dois do ladrão e um dos nos­sos, que foi o jun­co em que iam os cin­co por­tugue­ses, a que por nen­hu­ma via pude­mos ser bons, por já a este tem­po ter­mos a maior parte da gente feri­da. E re­fres­can­do-​nos so­bre a tarde a vi­ração, prou­ve a Nos­so Sen­hor que lh­es fugi­mos e es­capá­mos das suas mãos. 

  E con­tin­uan­do a nos­sa vi­agem as­sim de­stroça­dos co­mo íamos, mais três dias, nos deu um tem­po­ral de ven­to es­gar­rão por cima da ter­ra tão im­petu­oso que naque­la mes­ma noite a perde­mos de vista, e co­mo en­tão já a não podíamos tornar a tomar, nos foi forçoso ar­rib­ar­mos em popa à il­ha dos léquios onde este corsário era muito con­heci­do, tan­to do rei co­mo da out­ra gente da ter­ra; e nave­gan­do nós com es­ta de­ter­mi­nação por este ar­quipéla­go de il­has adi­ante, co­mo neste tem­po não lev­áva­mos pi­lo­to, por nos ter si­do mor­to na briga pas­sa­da, e os ven­tos nordestes nos er­am pon­teiros, e as águas cor­ri­am muito con­tra nós, bor­de­já­mos às voltas de um ru­mo no out­ro vinte e três dias com as­saz de tra­bal­ho, no fim dos quais prou­ve a Nos­so Sen­hor que vi­mos ter­ra, e chegan­do-​nos bem a ela para ver­mos se da­va de si al­gu­ma mostra de an­gra ou por­to de bom surgi­douro, lhe enx­ergá­mos da parte do sul, quase ao hor­izonte do mar, um grande fo­go, por onde imag­iná­mos que de­via ser povoa­da de al­gu­ma gente que por 